radarTaubaté
Saúde8 min de leitura

Saúde de Taubaté: quatro UPAs custam o mesmo que toda a rede de postos

Em 2025, quatro UPAs custaram R$ 116,9 milhões e toda a rede de postos, R$ 115 milhões. Taubaté interna em leito clínico metade do que os vizinhos internam. Os dados, o que a gestão atual fez e o que dá para fazer.

Compartilhar
XLinkedInWhatsAppFacebook

Em 2025, Taubaté gastou R$ 116,9 milhões com quatro UPAs e R$ 115 milhões com toda a rede de postos de saúde e Saúde da Família. É o sistema de saúde montado de trás para frente: pouco posto de bairro, muito pronto atendimento e um hospital municipal que quebrou e voltou pela metade. O resultado aparece onde dói. Por habitante, Taubaté interna em leito clínico metade do que São José dos Campos e Jacareí internam.

O que é atenção básica e por que ela define o resto?

Atenção básica é o posto de saúde do bairro. É onde se controla pressão alta e diabetes, se faz pré-natal e se evita que um problema simples vire internação. O modelo que o Ministério da Saúde financia é a Estratégia Saúde da Família: uma equipe fixa (médico, enfermeiro, técnico e agentes comunitários) responsável por cerca de 3.000 pessoas de um território.

Quando essa porta funciona, a UPA e o hospital recebem menos gente e casos mais certos. Quando ela é pequena, a fila escorre para o pronto atendimento.

Quanto Taubaté tem de Saúde da Família?

Pouco. O cadastro nacional de estabelecimentos de saúde (CNES) registra 35 equipes de Saúde da Família em Taubaté em setembro de 2026. São 1,09 equipe para cada 10 mil habitantes. Entre os 39 municípios do Vale do Paraíba, Taubaté fica em 38º lugar. A mediana da região é 2,8.

Na conta do próprio Ministério, cada equipe deveria cuidar de 3.000 pessoas. Em Taubaté, a conta dá cerca de 9.200 por equipe. A cobertura oficial de atenção básica é de 55,7%, contra uma mediana regional acima de 100% (veja a trajetória da cobertura de atenção básica).

O restante da rede básica são os PAMOs e as UBS Mais. Os PAMOs funcionam como pequenos ambulatórios: médicos especialistas (clínico, ginecologista, pediatra) com jornada de 20 horas e praticamente nenhum agente comunitário. Sem agentes comunitários, o atendimento depende de quem chega ao posto, e o acompanhamento das famílias no território fica limitado.

Para onde vai o dinheiro da saúde?

Destino (2025, despesa liquidada)Valor
Quatro UPAs (Central, CECAP, San Marino, Santa Helena)R$ 116,9 mi
Hospital Municipal Universitário (HMUT)R$ 115,1 mi
Rede de postos (clínicas básicas + Saúde da Família)R$ 115,0 mi

Fonte: TCE-SP, despesas por empenho, valores liquidados em 2025.

46%

As organizações sociais que administram UPAs e hospital ficaram com 46% de tudo que a saúde de Taubaté liquidou em 2025.

O pronto atendimento consome tanto quanto a prevenção. E a prevenção é justamente o que reduz a fila do pronto atendimento.

O que aconteceu com o hospital municipal?

As internações clínicas do HMUT caíram de cerca de 220 por mês em 2022 para menos de 100 por mês entre setembro de 2023 e abril de 2024, segundo o sistema de internações do SUS (SIH). As cirurgias de moradores da região foram de 2.880 em 2022 para 728 em 2024.

A própria Prefeitura informou, segundo reportagem do T7 News de abril de 2026, que o hospital teve redução e suspensão de serviços desde 2022 por questões financeiras. Segundo a mesma reportagem, a reorganização de 2024 contratou uma nova gestora, e o TCE-SP considerou irregulares o chamamento público e o contrato de gestão.

A queda aconteceu na gestão 2021-2024. Chegar ao ponto de suspender serviço é resultado de decisões de gestão, inclusive das que não foram tomadas a tempo.

E quem precisa de leito clínico hoje?

Internação em leito clínico, por 10 mil habitantes20242025
Taubaté106115
São José dos Campos200224
Jacareí220227
Mediana do Vale do Paraíba258229

Fonte: SIH/SUS, internações de moradores de cada cidade em leito clínico.

Taubaté interna em leito clínico a metade do que os vizinhos internam. Cirurgia e parto estão no nível dos vizinhos de porte parecido. O buraco é a internação clínica: pneumonia, infecção urinária, AVC, descompensação de doença crônica.

E há um sinal mais grave. Comparando pacientes da mesma idade e com o mesmo diagnóstico, a mortalidade dentro do hospital dos moradores de Taubaté internados em leito clínico ficou 40% acima do esperado em 2024 e 2025. Até 2022, era igual à da região.

O que esse número permite dizer

A mortalidade geral da cidade não subiu (7,66 por mil em 2024, contra 7,62 no restante do Vale, segundo a Fundação Seade). A leitura mais provável é de seleção: como há menos leito, só o caso mais grave consegue internar. Não são mortes a mais na cidade. É o retrato de uma porta estreita. Para onde vão os casos que não internam ainda não foi medido. A hipótese do Radar é que fiquem retidos nas UPAs.

A herança explica o ponto de partida. E a gestão atual?

O modelo de PAMOs é antigo e atravessou várias gestões. A crise do hospital é da gestão 2021-2024. Mas a gestão atual está no cargo desde janeiro de 2025, e os dados mostram duas velocidades.

No hospital, houve recuperação parcial: as cirurgias voltaram a 1.907 em 2025, e a Prefeitura informa que os leitos passaram de 137 para 190. Na internação clínica, a cidade continua na metade dos vizinhos (115 por 10 mil). E na atenção básica, quase nada mudou: eram 34 equipes de Saúde da Família em 2024 (e-Gestor APS) e são 35 em setembro de 2026 (CNES).

O plano plurianual 2026-2029, proposto pela gestão atual e aprovado pela Câmara, fixa como meta 92% de cobertura de atenção básica até 2029. Isso exige chegar a cerca de 64 equipes. No ritmo atual, de uma equipe a mais em quase dois anos, a meta não fecha. E a lei do orçamento de 2026 reserva 68% da saúde para a área hospitalar e especializada, contra 23% para a atenção primária.

Quanto dinheiro federal Taubaté deixa na mesa?

O Ministério da Saúde paga mais por equipe de Saúde da Família do que pelas equipes dos PAMOs (chamadas eAP). Pela tabela da Portaria GM/MS 3.493/2024, uma equipe de Saúde da Família em Taubaté pode receber até R$ 28 mil por mês. Uma eAP de 30 horas recebe até R$ 15,2 mil, e uma de 20 horas, menos ainda. As portarias seguintes (6.907/2025, 9.591/2025 e 10.994/2026) mudaram o cronograma e criaram novos tipos de equipe, mas mantiveram esses valores. Em 2026, pela regra de transição, toda equipe recebe ao menos a faixa “bom”: R$ 24 mil por mês para a Saúde da Família e R$ 13,2 mil para a eAP de 30 horas.

Resultado: o dinheiro federal responde por cerca de 21% do gasto de saúde de Taubaté. Em Pindamonhangaba são 23%, em São José dos Campos 25%, em Guaratinguetá e Jacareí, 30% a 31%.

O que o Radar conclui?

Os dados mostram uma falha de gestão que é estrutural e não de um único governo. E não é falta de esforço fiscal: em 2024, Taubaté aplicou 30,3% dos seus impostos em saúde, o dobro do mínimo constitucional de 15%, segundo o SIOPS do Ministério da Saúde. Gasta por habitante o mesmo que São José dos Campos (cerca de R$ 1.560 em 2025) e entrega metade da internação clínica. O problema não é quanto se gasta. É onde se gasta.

O que os dados não sustentam: dizer que a mortalidade da cidade subiu, ou que alguém escolheu esse modelo de propósito.

O que dá para fazer?

1. Leito clínico de retaguarda agora (6 a 12 meses). Estabilizar o contrato do HMUT com metas públicas de internação clínica, e criar leitos de retaguarda ligados às UPAs para quem hoje espera vaga. É o caminho mais rápido para fechar a metade que falta. Custo: depende de quantos leitos e de onde; é custeio hospitalar, área que já leva 68% do orçamento da saúde em 2026. O Radar não estimou o valor, e ele deveria ser público antes da decisão.

2. Converter PAMOs em Saúde da Família aos poucos (2 a 4 anos). Pela estimativa do Radar, uma equipe de Saúde da Família custa cerca de R$ 1,28 milhão por ano em pessoal; uma equipe de PAMO, R$ 1,13 milhão. O repasse federal sobe entre R$ 130 mil e R$ 176 mil por ano por equipe, pela faixa “bom”, que é o piso garantido a todas as equipes em 2026. Por equipe, a troca quase se paga, e cada equipe passa a cobrir cerca de 750 pessoas a mais. A dificuldade real é a transição: os especialistas concursados precisam ser realocados para ambulatórios de especialidade, onde também há fila, e é preciso contratar médicos de 40 horas e agentes comunitários. Um piloto em quatro ou cinco PAMOs de bairros mais vulneráveis reduz o risco.

3. Contratos com metas para as organizações sociais. Amarrar UPAs e hospital a indicadores públicos: tempo de permanência na UPA, internações evitáveis, ocupação de leito. Com metas publicadas, qualquer cidadão consegue acompanhar se o contrato entrega o que custa.

A recomendação do Radar

Fazer o 1 já, começar o 2 no mesmo ano e usar o 3 como regra. O hospital estanca o dano visível. A Saúde da Família corrige a causa.

Qual pergunta fica para a gestão atual?

Se a meta oficial é 92% de cobertura em 2029, quantas equipes de Saúde da Família a gestão atual vai credenciar em 2026 e 2027, e quais PAMOs entram primeiro? É uma pergunta para levar ao Conselho Municipal de Saúde e à Câmara.

Metodologia: gasto = despesa liquidada na função Saúde, TCE-SP (despesas por empenho), 2025; o comparativo entre cidades usa essa régua para todas, por isso o valor por habitante (R$ 1.561) difere dos R$ 1.326 do painel do Radar, que medem só a Secretaria e o Fundo Municipal de Saúde. Equipes: CNES, setembro de 2026. Internações e mortalidade hospitalar: SIH/SUS 2015 a 2025, moradores internados em hospitais SUS de São Paulo, ajustadas por idade e diagnóstico (método do Radar, conferido com o TabNet do DATASUS). Mortalidade geral: Fundação Seade. Percentual aplicado em saúde: SIOPS, indicador de recursos próprios pela LC 141/2012, conferido com a AUDESP/TCE-SP. Valores federais: Portaria GM/MS 3.493/2024, estrato 4, com as Portarias 6.907/2025, 9.591/2025 e 10.994/2026. Custo por equipe: estimativa do Radar com a folha por cargo do Portal da Transparência e as horas do CNES; não inclui custeio nem médicos do Mais Médicos. Radar Taubaté. Antes da opinião, os dados.

Perguntas frequentes

Taubaté gasta pouco com saúde?

Não. Em 2024 aplicou 30,3% dos impostos em saúde, o dobro do mínimo de 15% (SIOPS). Por habitante, gasta o mesmo que São José dos Campos (cerca de R$ 1.560 em 2025) e menos que Pindamonhangaba e Caraguatatuba. O problema é a distribuição: muito em pronto atendimento, pouco em Saúde da Família.

Quantas equipes de Saúde da Família Taubaté tem?

35 equipes em setembro de 2026, segundo o CNES: 1,09 por 10 mil habitantes, o 38º lugar entre os 39 municípios do Vale do Paraíba. Pelo parâmetro do Ministério da Saúde (3.000 pessoas por equipe), seriam necessárias cerca de 108.

O que é um PAMO?

É a unidade básica tradicional de Taubaté, com médicos especialistas em jornada parcial. Funciona como ambulatório e quase não tem agentes comunitários. No cadastro federal, os PAMOs aparecem como equipes de atenção primária (eAP).

A Saúde da Família dá direito a mais dinheiro federal?

Sim. Pela Portaria GM/MS 3.493/2024, mantida pelas portarias seguintes, uma equipe de Saúde da Família em Taubaté recebe até R$ 28 mil por mês, contra até R$ 15,2 mil de uma eAP de 30 horas.

Quanto custam as UPAs de Taubaté?

As quatro UPAs, administradas por organizações sociais, custaram R$ 116,9 milhões em 2025, quase o mesmo que toda a rede de postos e Saúde da Família (R$ 115 milhões), segundo as despesas registradas no TCE-SP.

A mortalidade em Taubaté aumentou?

A mortalidade geral, não. O que subiu foi a mortalidade dentro do hospital entre os internados em leito clínico, o que sugere que só os casos mais graves estão conseguindo vaga.

Fontes

  • TCE-SP: despesas por empenho da Prefeitura de Taubaté e de São José dos Campos, Jacareí, Pindamonhangaba, Guaratinguetá e Caraguatatuba, 2025
  • DATASUS: SIH/SUS, AIH reduzida (RDSP), 2015 a 2025
  • DATASUS: CNES, equipes (EP), leitos (LT) e profissionais (PF), setembro de 2026
  • Ministério da Saúde: e-Gestor APS, cobertura de atenção básica
  • Ministério da Saúde: SIOPS, indicadores municipais, % de recursos próprios aplicados em saúde (LC 141/2012)
  • Fundação Seade: mortalidade geral por município
  • Portarias GM/MS 3.493/2024, 6.907/2025, 9.591/2025 e 10.994/2026 (cofinanciamento federal da atenção primária)
  • Prefeitura de Taubaté: Portal da Transparência, folha de pagamento por cargo (setembro de 2026)
  • T7 News: Entenda a crise no HMUT: contratos, finanças e saída de servidores (17/04/2026)
  • Plano Plurianual 2026-2029 e Lei Orçamentária Anual 2026 de Taubaté
Newsletter

Receba as análises em primeira mão

Toda nova publicação do Radar Taubaté direto na sua caixa de entrada — antes de todo mundo. Sem spam. Cancele quando quiser.

Gratuito · Cancele quando quiser · Sem spam

Indicadores relacionados

cobertura ab pct →saude per capita →